quarta-feira, 2 de maio de 2007

BONEQUINHA DE LUXO

Bonequinha de luxo (Breakfast at Tiffany's, 1961)
Dirigido por Blake Edwards
Por Flávio Brun

Quando se fala em comédias românticas, normalmente o que se vem à mente é alguma hitorinha simples em que uma mocinha conhece um mocinho e ambos se apaixonam e acabam felizes para sempre, mesmo tendo algumas dificuldades no meio da história. "Bonequinha de luxo" poderia ter seguido esse caminho, porém não segue essa fórmula mágica de romance e esse é o ponto que o destacou como um clássico e torna-o uma referência na hora de se criar filmes do gênero.

Audrey Hepburn faz o papel de Holly Golightly, uma mulher que possui um passado com algumas surpresas a serem reveladas ao longo do filme. Holly mora sozinha em seu apartamento em Nova York, acompanhada apenas por seu gato sem nome, e sua vida baseia-se em fazer sempre algo novo. Ela possui duas formas de sustentar-se: sair com homens ricos (sonha em casar-se com um) e cobrar pelo serviço (mas não a ponto de se tornar uma prostituta) e ir visitar um chefão da máfia na prisão e passar a "previsão do tempo" (na sua ingenuidade ela não percebe que é mensagem em código da máfia para seu chefe). A possibilidade de um relacionamento sério com alguém é algo que Holly tem medo, e quando a oportunidade aparece, vemos o quanto ela está despreparada para isso. Seu gato sem nome reflete sua vida sem identidade, em que ela parece se conhecer muito bem, mas quando olha para dentro se assusta por não saber o que vê.

O par de Holly, Paul Varjak, é interpretado por George Peppard. Paul é um escritor que se muda para o apartamento no andar de cima de Holly logo no começo do filme, e os dois se conhecem no mesmo dia. Até o momento, Paul havia escrito apenas um livro, e se encontra com um bloqueio criativo. Sem emprego como escritor profissional, é sustentado por uma amiga, de quem é amante, porém é visível que isso é algo de que ele não se orgulha - ele possui ar de playboy, porém não se porta como um, e busca em sua vida algo sério e encontra, acidentalmente, no dia de sua mudança. Seu problema maior é a pessoa por quem se apaixona. Apesar de seu bom trabalho no papel, Peppard fica na sombra de Audrey, que está em um de seus melhores papéis aqui e, afinal, o filme pertence a ela.

O filme não se prende apenas ao relacionamento de Holly e Paul, com os dois se apaixonando à primeira vista e tentando vencer os obstáculos ao longo do filme (embora no primeiro encontro os dois tenham conversado um pouco demais, como se fossem ótimos amigos embora tenham se econtrado apenas para abrir uma porta). Isso é o que se veria em uma comédia romântica típica, porém em "Bonequinha de luxo" os dois começam apenas como amigos e acompanham as desventuras amorosas um do outro, tornando a relação do par algo superior aos romances comuns que temos aos montes na indústria cinematográfica. Como se tratam de dois personagens relativamente complexos, fugindo dos padrões de mocinho/mocinha impostos tantas vezes no cinema, temos aqui ótimas oportunidades de desenvolvimento, e a história as aproveita.

Mesmo com um roteiro bem desenvolvido, não é possível dizer que "Bonequinha de luxo" é um filme perfeito, com algumas pequenas falhas que poderiam ter sido facilmente eliminadas, mas por alguma razão permaneceram. O principal desses "defeitos" é o personagem de um dos vizinhos de Holly, o japonês que mora no último andar do prédio, sendo retratado de forma extremamente estereotipada e com momentos que deveriam ser engraçados, mas no final acabam sendo tão ridículos que nos perguntamos "Que diabos...?". A conclusão do filme também deixou a desejar, principalmente o discurso de Paul para Holly, sentimental e piegas - algo que o filme poderia ter deixado de fora.

A história do filme é baseada em um romance de Truman Capote que, ao vender os direitos de adaptação para a Paramount, queria que Holly fosse interpretada por Marilyn Monroe. Na época, os atores não tinham permissão de fazer filmes com o estúdio que quisessem, e Marilyn era contratada da Fox (e era um de seus maiores trunfos). Como, obviamente, a Fox não "emprestaria" Marilyn, e Audrey Hepburn era uma atriz bem-quista no cenário cinematográfico e ainda tinha contrato para mais um filme com o estúdio, foi assim que Holly ganhou vida. Dona de uma beleza diferente das beldades da época, Hepburn foi a escolha acertada para o papel, com um ar ingênuo que caiu bem à personagem - é difícil de imaginar Marilyn Monroe comendo bagel com café na frente da vitrine de uma joalheiria.

A trilha sonora do filme é um ponto extra neste grande clássico. "Moon River", cantada por Audrey em uma parte do filme, e cuja melodia é tema do filme, se tornou uma das canções mais lembradas da história do cinema, e com mérito. Os dois Oscar recebidos pelo filme foram na área musical. É curioso ver que Audrey canta nesse filme e foi preciso dublá-la três anos mais tarde no musical "My fair lady", onde poderia cantar à vontade.

Para os homens que acham que comédias românticas é coisa de mulher, ou para as próprias mulheres fãs do gênero, "Bonequinha de luxo" é uma caixinha de (boas) surpresas. Com bons momentos de humor e um romance diferente dos inúmeros já vistos, esse é um filme a ser visto - sozinho, para ver como o amor é possível e surpreendente, ou acompanhado, pois o simples fato de ser romance já pede para isso. O que não pode acontecer é deixar de vê-lo.

Um comentário:

Rafael Clark disse...

A Audrey foi dublada no My Fair Lady porque ela não sabe cantar. Sabia que Moon River foi composta especialmente para a vozinha limitada da atriz? Teoricamente, é uma música fácil de se cantar, mas até nela eu desafino! Eu sou um desastre! Hahahaha!

E eu imagino a Marilyn comendo bagel na frente da vitrine, sim! A Holly (ou Lula Mae) é toda songamonga e atrapalhada, bem como a Marilyn é - de forma meio diferente, claro, mas eu ainda via muito da Marilyn do Gentlemen Prefer Blondes na Holly Golightly.

Acho que este foi seu texto mais curto! Hehehehe. E está muito bom! Parabéns!