terça-feira, 5 de junho de 2007

O FABULOSO DESTINO DE AMÉLIE POULAIN

O fabuloso destino de Amélie Poulain (Le fabuleux destin d'Amélie Poulain, 2001)
Dirigido por Jean Pierre Jeunet
Por Flávio Brun

Se há uma palavra que possa descrever "O fabuloso destino de Amélie Poulain", essa palavra é "encantador". Uma vez introduzido ao mundo mágico de Amélie, é impossível não abrir um sorriso e se encantar com essa história regada de pequenos prazeres que acaba se tornando uma deliciosa experiência raramente igualada, e ver que as pequenas ações de uma pessoa podem fazer uma grande diferença nas vidas de quem a cerca.

Ao iniciar o filme, já temos conta que essa não é uma obra convencional. Os primeiros minutos contam de uma série de eventos que aconteceram no mesmo instante, como uma mosca pousando no meio de uma rua, um homem apagando um endereço de uma agenda e também um espermatozóide fecundando um óvulo, o que nove meses mais tarde viria a se tornar Amélie. Pessoas acostumadas ao mundinho de Hollywood normalmente se assutam ao ver algo diferente, e podem acabar desencorajadas por não entender do que se trata tantos fatos em tão pouco tempo. Apenas deve-se esperar mais alguns minutos para se acostumar com a forma da narrativa e, uma vez dentro do mundo de Amélie, ficamos presos de tal forma que torna-se impossível deixar de se maravilhar com os acontecimentos apresentados ao longo da película.

Amélie gosta de olhar pra trás no cinema e ver as expressões do público. Seu pai gosta de engraxar os sapatos e odeia quando seu calção gruda ao sair da piscina. Sua mãe gosta de organizar a bolsa e não gosta quando o rosto fica marcado pelo travesseiro. Pode parecer estranho descrever as pessoas pelo que elas gostam ou desgostam, mas é assim que somos introduzidos aos diversos personagens da história, o que ressalta um dos elementos diferenciais do filme - a ênfase aos pequenos detalhes que são tão ignorados mas que no fim das contas fazem toda diferença. Afinal, quem não se sente realizado por simplesmente jogar pedrinhas no rio ou estourar plástico-bolha?

Em sua infância, Amélie vive isolada das outras crianças, por não poder ir à escola, e vive em um mundo imaginário repleto de fantasia, com nuvens em formato de coelhos e ursos, e em que a vizinha em coma resolveu dormir todo seu sono de uma vez só. Anos mais tarde, Amélie torna-se garçonete e sua vida muda após encontrar uma latinha escondida em seu apartamento. Decidida a encontrar o misterioso dono da latinha, Amélie começa sua busca. Ao encontrar, ela fica tão realizada com o efeito que causou na vida do senhor o qual a latinha pertencia, que resolve se dedicar a fazer pequenos gestos capazes de tornar as pessoas mais felizes. Totalmente altruísta, Amélie acaba esquecendo de si mesma, sendo lembrada disso ao encontrar um rapaz que coleciona fotos tiradas em cabines automáticas, e começa a elaborar estratégias para chamar sua atenção.

A história é contada de maneira tão fluida, que torna o filme uma experiência única, dando a impressão ao término de que passamos duas horas fazendo as coisas gostosas da vida que o filme tanto preza. A história é cheia de ramificações, o que pode torná-lo um pouco confuso se não prestar atenção. A atenção dada aos pequenos detalhes da narrativa é tamanha, o que faz com que esse seja um dos melhores roteiros dos últimos anos. Nada aparece gratuitamente no filme, e um exemplo disso é a amiga de Amélie que é comissária de bordo. Ela é apresentada no começo do filme, e aparece apenas mais uma vez perto do fim da narrativa, porém ela é responsável pela história do anão de jardim que é de relativa importância ao final da película. São todas essas nuances e detalhes que fazem com que o filme continue interessante mesmo após assisti-lo diversas vezes, e ainda dê vontade de assistir novamente.

O diretor Jean Pierre Jeunet, responsável pelo terrível "Alien, a ressurreição", volta aqui para redimir-se de seu erro. Apesar de horrível em aspectos narrativos, seu filme das criaturas assassinas do espaço possuia um preciosismo em termos técnicos admirável, e sua experiência na área mostra-se visível em cada quadro de "Amélie". A belíssima fotografia do filme é o ponto que se sobressai, com muitos efeitos digitais que acabam se mesclando de forma perfeita - aliás, essa é a forma que deveriam ser usados tais efeitos: como complemento, e não distração. A trilha sonora de Yann Tiersen é contagiante e dita perfeitamente o tom do filme - mesmo ouvindo isoladamente, funciona perfeitamente como um levantador de ânimo. Por muitos desapercebido, o departamento de mixagem de som faz um trabalho excepcional aqui, em que uma cena em especial serve como exemplo disso: quando Amélie lê as cartas da vizinha, durante cada uma há um som de fundo. Ao ler a carta montada por Amélie, os sons de cada pedaço recortado por Amélie aparece discretamente - mais um detalhe que comprova a atenção dada pelo diretor a todos os aspectos da produção.

Além de todos os aspectos técnicos e ótima história, temos Audrey Tatou. A jovem atriz parece que foi talhada especialmente para o papel, sendo capaz de transparecer a bondade, ingenuidade e timidez de Amélie como nenhuma outra atriz conseguiria. Sua atuação é de tamanha qualidade que todos os outros acabam ficando sob sua sombra. Se há algo a criticar no filme, é a atuação de alguns atores coadjuvantes que parecem um pouco cartunescos em alguns momentos (em especial a mãe de Amélie), mas em momento algum isso se torna um grande empecílho para apreciação da história - tanto que o prórpio filme possui um tom cartunesco por si só. Audrey Tatou basicamente carrega o filme sozinha, presente em praticamente todos os quadros da película, e mostra de forma única o prazer de se ver uma excelente atuação.

O material publicitário do filme tinha como chamada "Ela vai mudar sua vida" - e de fato muda. Nem a pessoa mais séria e rabugenta deve ser capaz de resistir ao charme de Amélie e acabar o filme sem sentir-se bem. Uma ótima forma de escapismo dos problemas do cotidiano e também de se descobrir que cinema não se restringe a Hollywood.

6 comentários:

Renato disse...

Realmente pensando agora fui um filme muito bem lapidado. Tenho visto tanta porcaria e filmes bem produzidos mas sem graça, que esses bem pensados destoam.

Abrasss

Pierre Willemin disse...

Oi, Flávio. Adorei o seu blog tbm, já incluí um link no meu.
;-)
Textos de boa qualidade - sempre!

abraço

MRZacarias disse...

Tá entre os 5 melhores que já vi, provavelmente em primeiro lugar ^^

Eduardo disse...

Mas bá!!! Adorei o texto.. mesmo!! Tá muito bom, entre os melhores que já li dos teus!! Não me perdoo por ainda nao ter visto esse filme.. todo mundo que viu (e que possui cerebro) diz q é fantástico... quando eu for na locadora e lembrar, vou pegar com certeza ;) Abraço!

Fernanda disse...

Amoooo este filme!
É ótimo e não tem como alegrar seu dia! A única coisa ruim nele é que acaba :(
Ótima crítica, Flávio!!!!!
Está escrevendo muuuuito bem!
Parabéns!!!
Continue assim!
Beijos!

Rafael Clark disse...

Flávio, eu ADORO este filme. Mas gostava mais antes de ter visto os outros filmes do Jeunet. Parecem que são todos iguais! O Eterno Amor é um Amélie 2. E o Ladrão de Sonhos é um Amélie - Ano Zero. Meio chato esta repetição toda! Mas Amélie ainda é o melhor, disparado!
E a Audrey é muito fofa, mas ela sabe ser uma bitch (veja Albergue Espanhol e sua continuação, Bonecas Russas) e também sabe ser péssima atriz (veja O Código DaVinci).
Abração!