domingo, 10 de junho de 2007

DANÇANDO NO ESCURO

Dançando no Escuro (Dancer in the Dark, 2000)
Dirigido por Lars von Trier
Por Matheus Mocelin Carvalho

Selma (Björk) é uma jovem imigrante da Tchecoslováquia que se mudou para os Estados Unidos com o propósito de criar seu filho Gene (Vladica Kostic). Vivendo uma vida de pobreza, Selma trabalha em uma fábrica de esmaltados junto de sua melhor amiga Kathy (Catherine Deneuve) e vive em uma pequena casa alugada no quintal do policial Bill Houston (David Morse) e de sua esposa Linda (Cara Seymour). Desde pequena, Selma tem uma fascinação por musicais americanos, sendo que diversas vezes enquanto trabalha ela imagina fazer parte de um. No momento, ela se prepara para representar Maria em uma montagem de A Noviça Rebelde. Infelizmente para Selma, se torna cada vez mais difícil operar as máquinas da fábrica e ensaiar seus passos de dança, pois ela possui uma doença degenerativa hereditária que a torna graduadamente cega. Sua amiga Kathy é a única que sabe deste fato, e faz o possível para ajudá-la. Em um momento de fraqueza, seu vizinho Bill lhe confidencia que está falido e que não tem coragem de contá-lo à esposa. Selma então revela que têm economizado dinheiro durante anos para uma cirurgia que seu filho deve fazer para que não fique cego como ela.

Para aqueles que não assistiram ao filme, este é o máximo que se deve ler a respeito de seu enredo. Mas, apenas por tais pontos narrativos, não é difícil prever que Dançando no Escuro se trata de um dos grandes melodramas já colocados na tela. Este motivo pode ter afastado alguns espectadores mais cínicos, mas para aqueles que souberem abraçá-lo, o filme pode se tornar uma experiência difícil de ser esquecida. Para que isto ocorra, é necessário desde o início acreditar na história e no universo que Lars von Trier apresenta diante de seu espectador. Um mundo povoado por pessoas frias e traiçoeiras, onde situações trágicas são levadas ao extremo. Tendo em mente as intenções do diretor, é possível se deixar levar mais facilmente pela história da infeliz Selma, mesmo estando ciente das desavergonhadas tentativas de manipular o espectador.

Dançando no Escuro é carregado pela muito comentada atuação da cantora Björk, que devido aos seus desentendimentos com Trier e o cansaço gerado pela produção, jurou nunca mais aparecer em outro filme. Björk também escreveu as canções do filme, das quais ela interpreta todas. Apesar de não ser grande fã do estilo da cantora, não posso negar seu talento como atriz iniciante. Nas mãos de Lars von Trier, Björk acaba se tornando o maior instrumento utilizado pelo diretor para manipular a platéia, como se muitas vezes ele estivesse implorando para que esta se emocionasse. Não basta Selma ser cega, ter um filho fadado ao mesmo destino e não ter dinheiro nem para lhe comprar uma bicicleta no aniversário: ela tem que ser interpretada com uma inocência e pureza quase infantil, que às vezes nos levam a perguntar se seus problemas vão além da cegueira. Assim como a personagem Grace do superior Dogville, Selma se encontra em um mundo vil repleto de pessoas de caráter desprezível, com ela sendo a única totalmente inocente.

Um dos motivos dos filmes de Lars von Trier não serem tão recebidos em terras norte-americanas é seu explícito desgosto pela terra do tio Sam. Em Dançando no Escuro podemos ver isto com clareza: Selma é uma imigrante de alma pura que vai aos EUA a procura de oportunidades, mas tudo o que encontra é pobreza e hostilidade. Seus únicos amigos e as únicas pessoas que não a traem (interpretados por Catherine Deneuve e Peter Stormare) também são estrangeiros. Enquanto isso, o policial local interpretado por David Morse é o catalisador de suas desgraças, enfatizadas pela crueldade com que as autoridades americanas a tratam. É interessante que, o único momento em que vemos uma bandeira americana no filme (que, apesar de se passar no estado de Washington, foi filmado na Suécia) é após um evento que sinaliza o início da queda de Selma.

Lars von Trier foi um dos idealizadores do movimento Dogma95, e Dançando no Escuro nos possibilita ver em prática algumas das técnicas pregadas pelo diretor. Em uma decisão corajosa, Trier rodou o filme utilizando câmeras digitais manipuladas à mão, fazendo uso de uma paleta de cores arrastadas e iluminação natural. O tom melancólico é acentuado pelo discreto uso do som, a edição picotada e a oscilação da câmera. Quando Selma tem seus devaneios e vemos os números musicais como ocorrem em sua mente, o filme passa a utilizar planos geralmente estáticos onde as cores explodem na tela remetendo aos musicais em Technicolor da MGM filmados nos anos 40 e 50. Os números musicais também são inspirados nos clássicos da mesma época, com figurantes se unindo em grandes coreografias.

Vale notar que Dançando no Escuro foi lançado um ano antes do grande retorno dos musicais com Moulin Rouge. O diretor parece estar ciente de que muitos dos espectadores possam não estar preparados para o formato musical – tanto que, em um momento de auto-sátira, o personagem de Peter Stomare diz não entender o fascínio de Selma por musicais, pois as pessoas simplesmente saem dançando e cantando, algo que não acontece na vida real. Trier controla o “problema” encenando todos os números musicais na mente da personagem, artifício que seria repetido em Chicago. De fato, seria difícil acreditar que os interlúdios musicais de Björk fizessem parte do mesmo mundo sombrio e tenebroso do qual sua personagem vive. Um mundo que pode ser tão difícil para o espectador vivenciar quanto para os próprios personagens, mas que ao final se mostra uma experiência difícil de ser replicada – para o bem ou para o mal.

Um comentário:

Márcio disse...

Eu estava passeando na TV quando coloquei na MTV e estava passando um programa falando da Björk. Parei para dar uma olhada e realmente gostei da história dela. Obviamente que o programa falava deste filme que muitos disseram ter uma puta interpretação da Björk, tanto que levou um Cannes de melhor atriz, semo contar a direção do Trier, que é no mínimo diferente. Daí fiquei com vontade de procurar mais, mas veio a preguiça e não procurei.

Veja só minha sorte, exatamente quando precisa achei a crítica aqui no Pipoca \o/

Estou bem afim de ver o filme, talvez numa próxima UrsaB, quem sabe?

um abraço, ótima crítica ^^