quarta-feira, 18 de julho de 2007

MINHA BELA DAMA

Minha bela dama (My fair lady, 1964)
Dirigido por George Cuckor
Por Flávio Brun

Houve um tempo em que o cinema era uma forma de arte totalmente diferente em comparação ao divertimento pipoca que temos atualmente. Os filmes eram produções grandiosas, levavam anos para serem feitos e o público esperava por anos curiosos pela menor notícia sobre a produção, as estréias eram eventos de gala, as apresentações em estilo de espetáculo com abertura, intervalo e entreato (nos filmes mais longos). Enfim, fazer cinema era mais que apenas uma forma de entreter as massas. Nesse período que alguns dos grandes musicais do cinema estadunidense foram feitos, e um dos mais adoráveis deles foi "Minha bela dama".

Em uma noite chuvosa, à entrada de um teatro, um professor de fonética encontra uma moça pobre que fala terrivelmente mal. Sua reação não é complacência para com a moça, e sim asco, dizendo que sua fala não é digna dos pilares do lugar onde se encontram. Henry Higgins (Rex Harrison), o professor em questão, confiante de seu talento e sempre orgulhoso, brinca sobre uma aposta com o Coronel Pickering (Wilfrid Hyde-White) de que em seis meses ele seria capaz de tornar aquela criatura simplória em uma verdadeira dama. No dia seguinte, Eliza Doolittle (Audrey Hepburn) vai atrás do professor para que este possa fazer algo e que ela possa se tornar algo mais do que é.

A história de menina pobre que recebe uma oportunidade de transformar-se em alguém importante é uma das mais conhecidas e contadas, mas em "Minha bela dama" é contada de tal maneira que a impressão que dá é que estamos ouvindo-a pela primeira vez. Em todas as recontagens de histórias ao estilo Cinderella, há uma fada madrinha, mas em nenhum outro filme há uma fada madrinha como Henry Higgins. Rex Harrison provê um dos personagens mais marcantes já vistos, com uma mistura de superioridade aristocrática, uma certa arrogância e ótimas falas. O treinamento de Eliza com Higgins proporciona risadas dignas das melhores comédias, em momento algum sendo clichê ou beirando o pastelão. Ver Higgins exigindo que Eliza pronuncie suas vogais corretamente ou a moça torcendo na corrida de cavalos estão entre as cenas mais engraçadas já vistas na telona.

A produção de "Minha bela dama" contou com uma publicidade imensa. Para começar, havia sido o valor mais caro já pago para adaptação de uma obra para o cinema (o filme foi uma adaptação da peça da Broadway). Outro ponto foi a controvérsia em respeito da escolha de elenco: a atriz que interpretava Eliza na Broadway foi a então desconhecida Julie Andrews, e devido aos custos da produção, o estúdio não quis correr riscos e chamou a estrela da época, Audrey Hepburn. O fato foi favorável a Julie Andrews, pois ficou livre para fazer Mary Poppins, filme por qual ganhou o Oscar de melhor atriz. Para Audrey Hepburn, não foi tão favorável, pois deixou-a com uma imagem de "ladra" de papéis (em "Bonequinha de luxo", três anos antes, ela havia ficado com o papel idealizado para Marilyn Monroe).

A controvérisa em respeito da escolha da atriz para o papel de Eliza não deveria ter sido motivo de tanto alarde. O único problema de Audrey Hepburn para o papel é que sua voz não era a mais ideal para canto, e visto que esse é um musical, isso faz diferença, mas não se tomarmos em conta o número de atores e atrizes dublados em canções ao longo da história (e mal dublados, muitas vezes, o que não é o caso aqui). Julie Andrews possuia (e ainda possui, por sinal) uma bela voz para canto, o que a tornaria mais adequada para a personagem, e garanto que ela teria feito um belo trabalho como Eliza no primeiro ato do filme, em que Eliza é pobre e "gente do povo", mas no segundo ato, em que a personagem se torna uma bela e refinada dama, Audrey era simplesmente insubstituível. Foram poucas as atrizes que ao longo da história que puderam ser símbolos de talento e elegância, e Audrey foi uma delas. Julie Andrews também tem sua classe e estilo, porém na época ela era mais apropriada para personagens mais "sapecas", como a Maria de "A noviça rebelde".

"Minha bela dama" é uma extravagância visual e sonora, típica das grandes produções dos anos 60. Cada aspecto da produção visual foi extremamente bem trabalhado, e cada fotograma da película exibe com primor. Pioneiro em aspectos de som, esse foi o primeiro musical a ter parte das músicas gravadas usando microfones sem fios escondidos no figurino dos personagens. Falando em figurinos, este é outro dos aspectos em que o filme se destaca. As roupas usadas por Eliza após tornar-se a bela dama são belíssimas, e ajudam a realçar a beleza e classe natural que a atriz possui. Tão bom foi o desempenho técnico da equipe que o filme foi premiado com várias estatuetas na cerimônia do Oscar de 1964.

Apesar de todas suas qualidades, o filme peca em alguns momentos. Para aqueles que dizem não gostar musicais, esse deve ser evitado, pois os (poucos) pontos baixos do filme estão nas cenas cantadas. Em inglês, o termo "showstopper" se refere a números musicais elaborados e que prendem atenção, "parando o show" por assim dizer. As músicas que são showstoppers são, principalmente, as cantadas pelo pai de Eliza (Stanley Holloway). Além de parar o show porque são interessantes, à sua maneira, também param a narrativa completamente, e o filme poderia simplesmente ter sido feito sem elas. Além disso, as músicas cantadas por Higgins tendem a ser longas e, de certa forma, cansativas, por não serem músicas propriamente ditas, e sim frases sem rima faladas com certo ritmo. Algumas delas são peculiares, pois ao tentar expressar seu ponto de vista machista, torna a orientação sexual do personagem um tanto dúbia. Ainda no quesito musical, há a dublagem de Marni Nixon para a personagem de Audrey Hepburn. Nixon era uma das dubladoras mais famosas e competentes da época, tendo dublado Debora Kerr em "O rei e eu" e Natalie Wood em "Amor sublime amor" - neste último ela dublou duas personagens em uma mesma música, mostrando que é uma camaleoa vocal.

Uma obra que contempla tantos gêneros (musical, comédia, romance) tem tudo para dar certo e deve sempre ser lembrada. As melhores músicas de "Minha bela dama" são a melhor forma de descrever a experiência que é assistir a esse grande filme: uma obra "adoráver" e que uma vez vista, faz qualquer um dizer que "poderia dançar a noite inteira e ainda implorar por mais".

2 comentários:

Mariane disse...

ótima crítica Flávio. Gostei desse filme apesar de um pouco longo demais.

Rafael Clark disse...

Concordo com sua amiga. Longo demais! Infelizmente, discordamos neste. Adoráver é a última palavra que passaria pela minha cabeça!
Mas gostei do texto. Você gosta mesmo de escrever, hein?
E eu nem sabia que a Marilyn ia ser a Bonequinha de Luxo (trivia da IMDb ou documentário de DVD?).
Abraço.