quarta-feira, 20 de junho de 2007

O SHOW DEVE CONTINUAR

O show deve continuar (All that jazz, 1979)
Dirigido por Bob Fosse
Por Flávio Brun

"É hora do show, pessoal!"

A frase acima, dita tantas vezes ao longo de "O show deve continuar", expressa com perfeição a experiência de se assistir ao filme - um show. O diretor Bob Fosse volta ao cinema sete anos após seu genial "Cabaret" com um musical semi auto-biográfico sobre os exageros cometidos em sua vida no show business.

O filme se abre com John Gideon (Roy Scheider), um diretor de cinema e peças de teatro, em seu começo de dia: uma fita no rádio (o filme foi feito antes do advento do CD) dá um tom operático a sua vida pontuada por excessos, demonstrado por pílulas espalhadas pelo banheiro e seu cigarro sempre na boca (inclusive no banho). A palavra que resumiria a vida de Gideon é simplesmente "excesso": trabalho em excesso (não que ele reclame disso, ele faz por prazer), mulheres em excesso, stress em excesso. Tamanhos exageros o levam a ser uma pessoa basicamente solitária e o fazem flirtar com a morte - interpretada no filme como uma bela mulher de branco por Jessica Lange.

O ponto mais comentado na comunidade de críticos é o fato do filme ser semi auto-biográfico, porém mesmo não sendo, ainda assim é um deleite a todos, independente de gostar de musicais ou não. Em "O show deve continuar", nenhum personagem pára o que está fazendo e começa a cantar (contrário a maioria dos musicais pré-anos 70). Todos os números de canto e dança aparecem em meio às alucinações ou imaginação de Gideon - de forma similar à forma em que foi feito, mais de 20 anos depois, em "Chicago" que, por sinal, foi criado por Fosse para a Broadway (o título original de "O show deve continuar" se refere à musica de abertura de "Chicago").

Uma das indicações do filme no Oscar de 1979 foi de melhor ator para Roy Scheider, e foi uma terrível injustiça o ator ter perdido a estatueta. Scheider era muito popular na década de 70, e estava presente no filme vencedor do Oscar de melhor filme de 1971 ("Operação França") e seu papel mais conhecido provavelmente é o chefe Brody de "Tubarão", porém nenhum desses papéis se compara ao John Gideon representado por Scheider em "O show deve continuar". Algo muito comum é assistir a um filme e pensar "Eu já vi esse ator/atriz em algum lugar", porém Scheider criou um personagem tão convincente, que nada lembra seus trabalhos anteriores, tornando sua interpretação um exemplo a ser seguido. É raro ver uma atuação que não é apenas uma pessoa recitando palavras, e sim um compromisso de corpo e alma, em que o ator na tela é uma encarnação de seu personagem, um ser tri-dimensional que permanece conosco após o filme e com quem é facil de se identificar de alguma forma.

Munido de uma trilha sonora de primeira grandeza, uma das primeiras canções do filme, considerada por muitos como sendo a mais marcante, é "On Broadway", onde Gideon escolhe o elenco de sua nova produção e dezenas de pessoas dançam ao som contagiante da canção. O resto das músicas são encaixadas no contexto do filme, e aquelas cujo conteúdo é mais relevante para o filme, são as que se passam na imaginação do diretor onde os outros personagens expressam suas idéias em forma de canto - a parte em que isso se exemplifica seria durante a cirurgia, em que assiste as mulheres de sua vida (a ex-esposa, filha e namorada) falam de seus erros para com elas. Mesmo depois dessa experiência, o personagem não muda e continua com seus excessos. Aparentemente, sua conduta é apenas uma forma de conquistar o anjo da morte e satisfazer seus desejos físicos. Seu adeus à vida é feito da forma mais condizente possível ao seu estilo de vida: em um mega-espetáculo com uma grande platéia e em um grande número musical e no fim dele ele vai de encontro à bela mulher que para ele representa a morte.

Uma das cenas mais memoráveis do filme é a apresentação de "Take off with us / Air-otica", uma demonstração magnífica da beleza do corpo humano em movimento. Nessa cena, Fosse esbanja seu estílo característico de coreografia, com movimentos sensuais sem nunca parecer vulgar, um exemplo a ser seguido por aqueles que se dizem cineastas mas não têm um pingo de estilo.

"O show deve continuar" é um filme vencedor, e diversas premiações ao redor do mundo o consagraram na época nas mais diversas áreas, e isso comprova que este é um filme extremamente bem feito em todos os aspectos. Como a premiação mais badalada é o Oscar, este entra na imensa lista de injustiças da premiação, sendo infinitamente superior ao vencedor do prêmio de melhor filme daquele ano (a saber: "Kramer versus Kramer") e em nível equivalente a outro concorrente, "Apocalypse now". Bob Fosse morreu jovem alguns anos após a conclusão desse filme, em mais um caso em que a vida imita a arte, nos privando de mais grandes obras de um grande diretor. Fosse pode ter ido embora cedo, mas todo seu sacrifício não foi em vão, e todo aquele jazz ficará imortalizado enquanto houverem pessoas de bom gosto de cinema.

domingo, 10 de junho de 2007

DANÇANDO NO ESCURO

Dançando no Escuro (Dancer in the Dark, 2000)
Dirigido por Lars von Trier
Por Matheus Mocelin Carvalho

Selma (Björk) é uma jovem imigrante da Tchecoslováquia que se mudou para os Estados Unidos com o propósito de criar seu filho Gene (Vladica Kostic). Vivendo uma vida de pobreza, Selma trabalha em uma fábrica de esmaltados junto de sua melhor amiga Kathy (Catherine Deneuve) e vive em uma pequena casa alugada no quintal do policial Bill Houston (David Morse) e de sua esposa Linda (Cara Seymour). Desde pequena, Selma tem uma fascinação por musicais americanos, sendo que diversas vezes enquanto trabalha ela imagina fazer parte de um. No momento, ela se prepara para representar Maria em uma montagem de A Noviça Rebelde. Infelizmente para Selma, se torna cada vez mais difícil operar as máquinas da fábrica e ensaiar seus passos de dança, pois ela possui uma doença degenerativa hereditária que a torna graduadamente cega. Sua amiga Kathy é a única que sabe deste fato, e faz o possível para ajudá-la. Em um momento de fraqueza, seu vizinho Bill lhe confidencia que está falido e que não tem coragem de contá-lo à esposa. Selma então revela que têm economizado dinheiro durante anos para uma cirurgia que seu filho deve fazer para que não fique cego como ela.

Para aqueles que não assistiram ao filme, este é o máximo que se deve ler a respeito de seu enredo. Mas, apenas por tais pontos narrativos, não é difícil prever que Dançando no Escuro se trata de um dos grandes melodramas já colocados na tela. Este motivo pode ter afastado alguns espectadores mais cínicos, mas para aqueles que souberem abraçá-lo, o filme pode se tornar uma experiência difícil de ser esquecida. Para que isto ocorra, é necessário desde o início acreditar na história e no universo que Lars von Trier apresenta diante de seu espectador. Um mundo povoado por pessoas frias e traiçoeiras, onde situações trágicas são levadas ao extremo. Tendo em mente as intenções do diretor, é possível se deixar levar mais facilmente pela história da infeliz Selma, mesmo estando ciente das desavergonhadas tentativas de manipular o espectador.

Dançando no Escuro é carregado pela muito comentada atuação da cantora Björk, que devido aos seus desentendimentos com Trier e o cansaço gerado pela produção, jurou nunca mais aparecer em outro filme. Björk também escreveu as canções do filme, das quais ela interpreta todas. Apesar de não ser grande fã do estilo da cantora, não posso negar seu talento como atriz iniciante. Nas mãos de Lars von Trier, Björk acaba se tornando o maior instrumento utilizado pelo diretor para manipular a platéia, como se muitas vezes ele estivesse implorando para que esta se emocionasse. Não basta Selma ser cega, ter um filho fadado ao mesmo destino e não ter dinheiro nem para lhe comprar uma bicicleta no aniversário: ela tem que ser interpretada com uma inocência e pureza quase infantil, que às vezes nos levam a perguntar se seus problemas vão além da cegueira. Assim como a personagem Grace do superior Dogville, Selma se encontra em um mundo vil repleto de pessoas de caráter desprezível, com ela sendo a única totalmente inocente.

Um dos motivos dos filmes de Lars von Trier não serem tão recebidos em terras norte-americanas é seu explícito desgosto pela terra do tio Sam. Em Dançando no Escuro podemos ver isto com clareza: Selma é uma imigrante de alma pura que vai aos EUA a procura de oportunidades, mas tudo o que encontra é pobreza e hostilidade. Seus únicos amigos e as únicas pessoas que não a traem (interpretados por Catherine Deneuve e Peter Stormare) também são estrangeiros. Enquanto isso, o policial local interpretado por David Morse é o catalisador de suas desgraças, enfatizadas pela crueldade com que as autoridades americanas a tratam. É interessante que, o único momento em que vemos uma bandeira americana no filme (que, apesar de se passar no estado de Washington, foi filmado na Suécia) é após um evento que sinaliza o início da queda de Selma.

Lars von Trier foi um dos idealizadores do movimento Dogma95, e Dançando no Escuro nos possibilita ver em prática algumas das técnicas pregadas pelo diretor. Em uma decisão corajosa, Trier rodou o filme utilizando câmeras digitais manipuladas à mão, fazendo uso de uma paleta de cores arrastadas e iluminação natural. O tom melancólico é acentuado pelo discreto uso do som, a edição picotada e a oscilação da câmera. Quando Selma tem seus devaneios e vemos os números musicais como ocorrem em sua mente, o filme passa a utilizar planos geralmente estáticos onde as cores explodem na tela remetendo aos musicais em Technicolor da MGM filmados nos anos 40 e 50. Os números musicais também são inspirados nos clássicos da mesma época, com figurantes se unindo em grandes coreografias.

Vale notar que Dançando no Escuro foi lançado um ano antes do grande retorno dos musicais com Moulin Rouge. O diretor parece estar ciente de que muitos dos espectadores possam não estar preparados para o formato musical – tanto que, em um momento de auto-sátira, o personagem de Peter Stomare diz não entender o fascínio de Selma por musicais, pois as pessoas simplesmente saem dançando e cantando, algo que não acontece na vida real. Trier controla o “problema” encenando todos os números musicais na mente da personagem, artifício que seria repetido em Chicago. De fato, seria difícil acreditar que os interlúdios musicais de Björk fizessem parte do mesmo mundo sombrio e tenebroso do qual sua personagem vive. Um mundo que pode ser tão difícil para o espectador vivenciar quanto para os próprios personagens, mas que ao final se mostra uma experiência difícil de ser replicada – para o bem ou para o mal.

terça-feira, 5 de junho de 2007

O FABULOSO DESTINO DE AMÉLIE POULAIN

O fabuloso destino de Amélie Poulain (Le fabuleux destin d'Amélie Poulain, 2001)
Dirigido por Jean Pierre Jeunet
Por Flávio Brun

Se há uma palavra que possa descrever "O fabuloso destino de Amélie Poulain", essa palavra é "encantador". Uma vez introduzido ao mundo mágico de Amélie, é impossível não abrir um sorriso e se encantar com essa história regada de pequenos prazeres que acaba se tornando uma deliciosa experiência raramente igualada, e ver que as pequenas ações de uma pessoa podem fazer uma grande diferença nas vidas de quem a cerca.

Ao iniciar o filme, já temos conta que essa não é uma obra convencional. Os primeiros minutos contam de uma série de eventos que aconteceram no mesmo instante, como uma mosca pousando no meio de uma rua, um homem apagando um endereço de uma agenda e também um espermatozóide fecundando um óvulo, o que nove meses mais tarde viria a se tornar Amélie. Pessoas acostumadas ao mundinho de Hollywood normalmente se assutam ao ver algo diferente, e podem acabar desencorajadas por não entender do que se trata tantos fatos em tão pouco tempo. Apenas deve-se esperar mais alguns minutos para se acostumar com a forma da narrativa e, uma vez dentro do mundo de Amélie, ficamos presos de tal forma que torna-se impossível deixar de se maravilhar com os acontecimentos apresentados ao longo da película.

Amélie gosta de olhar pra trás no cinema e ver as expressões do público. Seu pai gosta de engraxar os sapatos e odeia quando seu calção gruda ao sair da piscina. Sua mãe gosta de organizar a bolsa e não gosta quando o rosto fica marcado pelo travesseiro. Pode parecer estranho descrever as pessoas pelo que elas gostam ou desgostam, mas é assim que somos introduzidos aos diversos personagens da história, o que ressalta um dos elementos diferenciais do filme - a ênfase aos pequenos detalhes que são tão ignorados mas que no fim das contas fazem toda diferença. Afinal, quem não se sente realizado por simplesmente jogar pedrinhas no rio ou estourar plástico-bolha?

Em sua infância, Amélie vive isolada das outras crianças, por não poder ir à escola, e vive em um mundo imaginário repleto de fantasia, com nuvens em formato de coelhos e ursos, e em que a vizinha em coma resolveu dormir todo seu sono de uma vez só. Anos mais tarde, Amélie torna-se garçonete e sua vida muda após encontrar uma latinha escondida em seu apartamento. Decidida a encontrar o misterioso dono da latinha, Amélie começa sua busca. Ao encontrar, ela fica tão realizada com o efeito que causou na vida do senhor o qual a latinha pertencia, que resolve se dedicar a fazer pequenos gestos capazes de tornar as pessoas mais felizes. Totalmente altruísta, Amélie acaba esquecendo de si mesma, sendo lembrada disso ao encontrar um rapaz que coleciona fotos tiradas em cabines automáticas, e começa a elaborar estratégias para chamar sua atenção.

A história é contada de maneira tão fluida, que torna o filme uma experiência única, dando a impressão ao término de que passamos duas horas fazendo as coisas gostosas da vida que o filme tanto preza. A história é cheia de ramificações, o que pode torná-lo um pouco confuso se não prestar atenção. A atenção dada aos pequenos detalhes da narrativa é tamanha, o que faz com que esse seja um dos melhores roteiros dos últimos anos. Nada aparece gratuitamente no filme, e um exemplo disso é a amiga de Amélie que é comissária de bordo. Ela é apresentada no começo do filme, e aparece apenas mais uma vez perto do fim da narrativa, porém ela é responsável pela história do anão de jardim que é de relativa importância ao final da película. São todas essas nuances e detalhes que fazem com que o filme continue interessante mesmo após assisti-lo diversas vezes, e ainda dê vontade de assistir novamente.

O diretor Jean Pierre Jeunet, responsável pelo terrível "Alien, a ressurreição", volta aqui para redimir-se de seu erro. Apesar de horrível em aspectos narrativos, seu filme das criaturas assassinas do espaço possuia um preciosismo em termos técnicos admirável, e sua experiência na área mostra-se visível em cada quadro de "Amélie". A belíssima fotografia do filme é o ponto que se sobressai, com muitos efeitos digitais que acabam se mesclando de forma perfeita - aliás, essa é a forma que deveriam ser usados tais efeitos: como complemento, e não distração. A trilha sonora de Yann Tiersen é contagiante e dita perfeitamente o tom do filme - mesmo ouvindo isoladamente, funciona perfeitamente como um levantador de ânimo. Por muitos desapercebido, o departamento de mixagem de som faz um trabalho excepcional aqui, em que uma cena em especial serve como exemplo disso: quando Amélie lê as cartas da vizinha, durante cada uma há um som de fundo. Ao ler a carta montada por Amélie, os sons de cada pedaço recortado por Amélie aparece discretamente - mais um detalhe que comprova a atenção dada pelo diretor a todos os aspectos da produção.

Além de todos os aspectos técnicos e ótima história, temos Audrey Tatou. A jovem atriz parece que foi talhada especialmente para o papel, sendo capaz de transparecer a bondade, ingenuidade e timidez de Amélie como nenhuma outra atriz conseguiria. Sua atuação é de tamanha qualidade que todos os outros acabam ficando sob sua sombra. Se há algo a criticar no filme, é a atuação de alguns atores coadjuvantes que parecem um pouco cartunescos em alguns momentos (em especial a mãe de Amélie), mas em momento algum isso se torna um grande empecílho para apreciação da história - tanto que o prórpio filme possui um tom cartunesco por si só. Audrey Tatou basicamente carrega o filme sozinha, presente em praticamente todos os quadros da película, e mostra de forma única o prazer de se ver uma excelente atuação.

O material publicitário do filme tinha como chamada "Ela vai mudar sua vida" - e de fato muda. Nem a pessoa mais séria e rabugenta deve ser capaz de resistir ao charme de Amélie e acabar o filme sem sentir-se bem. Uma ótima forma de escapismo dos problemas do cotidiano e também de se descobrir que cinema não se restringe a Hollywood.

sexta-feira, 25 de maio de 2007

A ÚLTIMA SESSÃO DE CINEMA

A última sessão de cinema (The last picture show, 1971)
Dirigido por Peter Bogdanovich
Por Flávio Brun

Um filme nostálgico, porém sem idolatrias a uma era, "A última sessão de cinema" mostra o dia-a-dia de uma cidadezinha no interior do Texas no começo dos anos 50, onde a última era de ouro do cinema americano dava seu último suspiro.

A história é basicamente um drama adolescente, dando ênfase a três jovens - Sonny, Duane e Jacy. Os adultos aparecem durante o filme, porém seus personagens são meros coadjuvantes, mas ainda assim vitais para o desenvolver da história - os principais são a mãe de Jacy, Sam o Leão e Ruth. Ao começo do filme, os três jovens são colegas de escola e Jacy e Duane são namorados, para a inveja de Sonny, que tem uma queda por Jacy, que por sua vez tem o namoro desaprovado por sua mãe, que acha que Duane é pobre e não merece sua filha. Sonny é o protegido de Sam, que é dono de todos os locais de lazer da cidade - o bar, salão de sinuca e cinema. A película cobre o período de aproximadamente um ano e meio da vida desses personagens em uma cidade vazia e monótona. O filme teria sido melhor se tivesse dado mais ênfase aos personagens secundários, cujos dramas não foram suficientemente trabalhados - principalmente Ruth, a esposa do treinador e a mãe de Jacy, infeliz no seu casamento de conveniência.

Um roteiro com adolescentes como protagonistas pode se tornar uma armadilha quanto ao rumo de seus personagens, sendo fácil desperdiçar um bom enredo para criar apenas mais uma comédia acéfala ou uma história apenas com drogas, sexo e rock 'n roll. Em "A última sessão de cinema" temos a presença de sexo em alta dose, porém apenas simbolizando o pensamento da era e o começo da liberdade sexual que veio a explodir uma década depois. Os jovens do filme têm alma, não sendo apenas um estereótipo de pessoas que apenas pensam com seus genitais. Em suas jornadas, acompanhamos suas frustrações, dramas pessoais e desejos, sendo possível nos identificarmos com esses personagens que não são apenas sombras projetadas em uma tela de cinema, e sim pessoas de carne e osso com problemas reais que toda pessoa normal tem.

O elenco do filme é composto por atores que hoje são conhecidos, porém aqui estão em seus primeiros papéis de destaque, e se saem muito bem em suas interpretações. Jacy é interpretada por Cybill Shepherd (mais conhecida por seu papel na minissérie "A gata e o rato" e no filme "Taxi driver"), em um papel difícil para uma atriz novata, pois Jacy é uma menina ousada e sem sentimentos pelos rapazes com quem sai. Ellen Burstin (a famosa mãe da menina possuída pelo demônio em "O exorcista) interpreta a mãe de Jacy e, apesar de não ganhar muito destaque, cumpre seu papel muito bem. Duane é interpretado por Jeff Bridges, sendo o elo mais fraco de um bom elenco.

A iniciativa de filmar o filme em tons de cinza (não preto-branco pois cinza é diferente de preto e branco!) foi uma decisão acertada, pois a falta de cores nos aumenta a sensação de desolação do lugar e das pessoas que lá vivem. Como não se trata de um filme onde a felicidade parece ter abandonado a vida da maioria dos personagens, cores não cairiam bem aqui. Além de ressaltar o clima do filme, todo o trabalho artístico envolvido na produção do filme atinge o objetivo de transportar-nos direto à década de 50, tornando crível a que essa produção de 1971 tenha sido feita vinte anos antes. As locações do filme utilizam de uma cidade pequena, vazia, quase deserta, o que amplia ainda mais a sensação de vazio na vida dos personagens.

O título "A última sessão de cinema" pouco tem a ver com a história de seus personagens, se referindo ao cinema que é forçado a fechar devido à crise que a indústria cinematográfica enfrentou com a popularização da televisão. As pessoas, na época, abandonaram o costume de ir ao cinema para fins de entretenimento e informação (antes dos filmes costumavam passar notícias) para ficar em casa pois o pensamento geral era "para que pagar se eu posso assistir de graça no conforto do meu sofá?".

Dois anos depois de seu lançamento, "A última sessão de cinema" viria a influenciar o jovem diretor George Lucas ao filmar "American Graffiti - Loucuras de verão", um filme sobre um grupo de amigos adolescentes que passam uma noite fazendo o que todo jovem sabe fazer - transar, beber e entrar em confusão. Apesar da diferença de abordagem dos jovens, a influência é clara - trazer à tona uma visão nostálgica de uma década que já passou usando a vida de adolescentes para explicitar o que foi perdido.

Um clássico exemplo de filme cujo tema é nostalgia, esse filme sucede aos demais do gênero por não tentar glorificar a era que já terminou e sim apenas apresentar a vida da época com realismo. Um ótimo retrato de um período que jamais será esquecido por amantes da arte de se fazer cinema e nem por amantes de uma época em que a vida era mais simples.

segunda-feira, 21 de maio de 2007

OS 39 DEGRAUS

Os 39 Degraus (The 39 Steps, 1935)
Dirigido por Alfred Hitchcock
Por Matheus Mocelin Carvalho

Apesar de constantemente citado entre seus mais importantes trabalhos e certamente o mais popular filme de sua fase britânica, Os 39 Degraus não se tornou parte do consciente popular como as futuras produções de Alfred Hitchcock se tornariam. Tal fato não deve desmerecer a obra que, apesar de mostrar um diretor ainda em fase de amadurecimento, é capaz de se sustentar no cannon do mestre do suspense como um de seus grandes feitos.

Os 39 Degraus pode ser considerado o arquétipo do que viria a se tornar um tradicional filme de Hitchock, pois aqui somos apresentados a diversos temas que apareceriam constantemente em suas futuras obras: a história do “homem errado” perseguido por um crime que não cometeu; a figura da mulher loira fria, cínica e dominadora; e finamente, o uso do MacGuffin, um recurso narrativo utilizado para mover a história, mas que ao final revela possuir pouca importância. Os mais familiarizados com a filmografia do diretor poderão estabelecer uma conexão entre esta produção e filmes como Ladrão de Casaca, O Homem que Sabia Demais e, especialmente, Intriga Internacional de 1959. Podemos considerar Os 39 Degraus como o rascunho de uma obra de arte, que seria refinada e receberia os toques finais com o filme de 1959.

Em Os 39 Degraus somos apresentados ao canadense Richard Hannay (Rober Donat) que acaba tendo um encontro ao acaso com Anabelle Smith (Lucile Manheim), uma espiã que diz ter descoberto um plano que pretende levar informações secretas para fora da Inglaterra. Quando a moça é assassinada em seu apartamento, Richard acaba sendo acusado injustamente pelo crime e é obrigado a fugir para a Escócia, seguindo as pistas deixadas pela espiã. No país ele acaba caindo nas mãos da organização por trás do assassinato de Anabelle, e para escapar e desvendar o mistério ele conta com a ajuda da atraente Pamela (Madeleine Carroll). Sendo um filme de Hitchcock, diversas reviravoltas podem ser esperadas até o final, sendo que a revelação dos ditos 39 degraus acaba sendo a de menor importância (vide o MacGuffin).

Mesmo não apresentando o requinte técnico e visual de suas futuras produções americanas, Os 39 Degraus apresenta um diretor educado nas escolas cinematográficas alemãs e russas. Hitchcock já demonstra seu talento na composição de quadros, e sua edição já se mostra eficaz o bastante para criar emocionantes cenas de ação e suspense, valendo destacar uma perseguição ambientada em um trem que oferece uma prévia de momentos semelhantes em A Sombra de uma Dúvida e Intriga Internacional. Enquanto não apresentam um profundo estudo de psique, os personagens são iluminados por brilhantes momentos de diálogos. Podemos destacar as cenas guiadas por um humor cínico entre Robert Donat e Madeleine Carrol, tais sendo carregados de certa dose de tensão sexual – basta dizer que um ousado momento envolvendo algemas e meias-calça provavelmente não teria sido aprovado por censores americanos. O enredo em si não nos permite múltiplas interpretações como muitas das melhores obras do mestre (e se tantas comparações com seus demais filmes são feitas, é porque tais são inevitáveis), mas isso não altera o fato de que Os 39 Degraus foi um importante passo na carreira ascendente do então jovem Alfred Hitchcock, e provavelmente o primeiro filme que o fez ser notado internacionalmente. Mesmo não apresentando a mesma profundidade de outros de seus trabalhos, merece seu lugar entre os melhores filmes do diretor.

sexta-feira, 18 de maio de 2007

O PECADO MORA AO LADO

O pecado mora ao lado (The seven year itch, 1955)
Dirigido por Billy Wilder
Por Flávio Brun

A simples menção do nome de Marylin Monroe na maioria das vezes traz à mente a imagem da atriz tentando evitar que seu vestido branco suba com o vento. O que muita gente não sabe é que essa cena icônica do cinema é parte de um pequeno filme chamado "O pecado mora ao lado", uma comédia do brilhante diretor e roteirista Billy Wilder.

Desde antes do descobrimento da América, habitantes de Manhattan possuem um costume: todo ano, com a chegada do verão, as esposas e as crianças viajam para algum lugar ao norte para escapar do calor escaldante, enquanto os homens ficam na cidade fazendo suas tarefas (pescar, montar armadilhas e caçar). Mais de 500 anos depois, os homens continuam com o mesmo costume, e "O pecado mora ao lado" conta a história de Richard Sherman, que ao invés de pescar, montar armadilhas e caçar enquanto a família está longe, trabalha como editor de uma publicadora. No seu primeiro dia sozinho, Sherman conhece a nova vizinha do andar de cima (Marilyn Monroe) - tornando o título em português errôneo, pois o pecado mora em cima, e não ao lado - e logo começa a sentir a coceira da tentação - o título original do filme seria "A coceira dos sete anos", se referindo a uma teoria do filme que os homens são mais propensos ao adultério no seu sétimo ano de casamento.

A imaginação de Sherman está além do escopo abrangido por "fértil". Como diz sua esposa no filme, sua imaginação é "em cinemascope e com som estereofônico". As cenas mais engraçadas e divertidas são, de longe, quando Sherman está imaginando uma realidade paralela à que ele está vivendo, como por exemplo quando ele imagina uma discussão com sua esposa sobre as várias em que ele resistiu a mulheres se jogando em cima dele devido ao seu "charme animal" (uma vez que Sherman pode ser qualquer coisa, menos atraente), ou quando ele imagina ser apanhado pela mulher com outra em seu apartamento. Ao longo do filme, em vários momentos há a menção de algum elemento da cultura pop da época - um exemplo disso é em uma das cenas de imaginação de Sherman, em que a famosa cena do casal na praia ao bater das ondas de "A um passo da eternidade" é reproduzida em uma das referências mais descaradas já apresentadas - e o filme em momentos se auto-referencia, como na cena em que Sherman grita com um vizinho "quem você acha que está na cozinha, Marilyn Monroe?" ou a cena em que a esposa descreve a imaginação dele (o filme foi, de fato, filmado em cinemascope e com som estereofônico).

O filme é uma adaptação da peça de teatro homônima, e Tom Ewell repete seu papel da peça no filme, como Sherman. Na maioria dos casos em que um ator/atriz faz no cinema um papel que o consagrou no teatro, a atuação no cinema é digna de louvor, e com Ewell não foi diferente. Sua capacidade de expressão é fantástica, tornando impossível não rir de suas neuroses, além de suas caras e bocas ao longo do filme. Marilyn Monroe faz o papel da vizinha sem nome, personificando mais uma vez o estereótipo de loira burra, o qual odiava. A ingenuidade da vizinha ajuda a manter críveis as fantasias de Sherman, mas ao mesmo tempo perde a credulidade da audiência com relação a própria personagem.

Em 1955, o filme causou furor por sua ousadia para a época, apesar de que, se analisarmos o filme com os olhos de hoje, não se encontra nada de mais, parecendo até bastante inocente comparando com as comédias atuais. Na época, os responsáveis pela censura queriam proibi-lo, por apresentar um tema polêmico (adultério) como algo banal, mesmo não havendo cenas de real adultério (com exceção de um ou dois beijinhos de Sherman com a vizinha). Outra coisa que chocou foi a sensualidade exibida na tela, com a personagem de Marilyn com o dedão do pé preso na banheira, e até mesmo a famosa cena do vestido sendo levantado pela corrente de ar vinda do trem.

Quando se comenta sobre a obra do diretor Billy Wilder, "O pecado mora ao lado" normalmente é um de seus filmes menos citados, e de forma injusta. É claro que comparar essa simples comédia com obras máximas de seu currículo (como o brilhante "Crepúsculo dos deuses") é injusto, e até pode passar desapercebido, porém considerando a polêmica e o sucesso do filme na época de seu lançamento, esse é um filme que não deve ser ignorado. O humor mordaz de Wilder está presente aqui, além das ótimas atuações por parte do elenco. Sempre desafiando a indústria do cinema, Billy Wilder travou uma batalha para poder realizar esse filme, porém muito do conteúdo teve que ser alterado ou até mesmo cortado - a cena clássica do vestido teve que ser editada para que não aparecesse a calcinha de Marilyn, por exemplo. O resultado foi uma deliciosa comédia com altos níveis de insinuação e muita sensualidade por parte de Marilyn.

Em mais uma obra-prima, Billy Wilder mostra em "O pecado mora ao lado" que uma boa comédia não é feita apenas de uma série de cenas estúpidas com adolescentes bêbados e piadas de sexo, algo que o cinema atual parece ter esquecido, e sim de um roteiro inteligente com piadas sutis, que não subestimam a capacidade intelectual dos espectadores. Para quem gosta de comédias, ao invés de assistir filmes como "Um show de vizinha" ou qualquer outro do gênero comédia-adolescente-sem-cérebro, dê uma chance a esse clássico. A falta de nudez pode fazer falta, mas a beleza natural de Marilyn Monroe compensa qualquer nudez. Além do mais, comédias são comédias, e não tentativas frustradas de filmes pornô.

quinta-feira, 17 de maio de 2007

...E O VENTO LEVOU

...E o Vento Levou (Gone With the Wind, 1939)
Dirigido por Victor Fleming

Por Matheus Mocelin Carvalho

Restritos são os filmes que conseguem a façanha de tornarem-se lendas em seu próprio tempo. ...E o Vento Levou pode ser considerado um desses raros exemplos. Tido como uma das representações máximas de como um épico cinematográfico deve ser, o filme é provavelmente o maior representante da Era de Ouro de Hollywood. Uma produção que conseguiu estabelecer uma conexão com a platéia como poucos antes ou depois de si ao ponto de entrar para a cultura popular, com seus inúmeros relançamentos provando repetidamente sua enorme popularidade – de fato, se ajustarmos os números pela inflação, ...E o Vento Levou ocupa o posto de maior bilheteria de todos os tempos. O filme também aparece na quarta posição na lista do American Film Institute dos 100 melhores filmes americanos de todos os tempos.

A concepção de ...E o Vento Levou originou com o romance literário de Margaret Mitchell de mesmo nome publicado em 1936. Um fenômeno literário comparável ao recente sucesso de O Código Da Vinci de Dan Brown, o livro teve seus direitos cinematográficos adquiridos pelo produtor David O. Selznick pelo então exorbitante valor de $50,000 dólares. Mesmo em uma época onde a Internet estava há décadas no futuro, a produção era acompanhada de perto pela imprensa e público, com a busca de uma atriz para interpretar a destemida Scarlett O’Hara se tornando uma obsessão nacional (acredita-se que mais de 400 atrizes foram testadas para o papel). A atriz inglesa Vivien Leigh ganhou aquele que é provavelmente o mais famoso papel feminino da história, enquanto o papel de seu interesse amoroso, o capitão Rhett Butler, foi inevitavelmente para Clark Gable (vale notar que, apesar de aparecer em praticamente todas as cenas do filme, o nome de Leigh é creditado em segundo, atrás de Gable). Após uma conturbada produção que passou por três diretores diferentes (apesar de apenas Victor Fleming ser creditado), o filme foi lançado em 1939, se tornando uma febre mundial ainda maior que a do livro que o originou, e logo ultrapassando Branca de Neve e os Sete Anões (Snow White and the Seven Dwarfs, 1937) como a maior bilheteria de todos os tempos.

Seria fácil rebaixar ...E o Vento Levou como um melodrama manipulador, originário de uma série de elementos narrativos que se tornariam clichês em inúmeras outras produções dramáticas (como a telenovela). A verdade é que o filme foi produzido em uma época de diferentes percepções estéticas e culturais (tomamos em mente que esta é uma época prévia à linguagem cinematográfica moderna introduzida em Cidadão Kane), e para o público de 1939, esta era uma experiência como nenhuma outra vista anteriormente. O fato de que sua fórmula seria repetida à exaustão apenas comprova o quão inserido na cultura popular a obra se tornou. Outras superproduções tentaram repetir o mesmo ângulo de romance contra cenário histórico (como Doutor Jivago de David Lean e, a certo ponto, Titanic de James Cameron), com resultados nem sempre tão positivos.

A saga de Scarlett O’Hara e sua luta para subir na vida em meio à hostilidade da Guerra da Secessão atingiram um acorde em especial com as platéias de 1939. Ainda sofrendo os terríveis efeitos da Depressão, o público pôde identificar na protagonista sua própria imagem: alguém que vai à falência e chega ao mais profundo desespero, mas que não desiste de lutar apesar das maiores dificuldades. E é tal determinação que ajuda a tornar a tornar Scarlett uma das mais fascinantes e tridimensionais personagens na história do cinema. Provavelmente o maior exemplo de anti-heroína, eis uma mulher que é capaz de chegar a situações extremas para defender sua terra e sua família (como diz no seu apaixonado juramento, ela realmente “mente, rouba, trapaceia e mata”). Educada como uma típica “beldade do sul”, Scarlett é uma jovem mimada e manipuladora que não se conforma quando suas vontades não são atendidas. Seu suposto amor por Ashley Wilkes, por exemplo, se revela ser nada mais do que a ilusão da mente de uma garota por algo que nunca existiu de verdade e um capricho por querer algo que ela não pode ter. A ambígua personalidade de Scarlett é demonstrada em diversas situações ao longo do filme: ela é capaz de ajudar e proteger Melanie (ainda que por dívida a Ashley), mas também é capaz de ser mesquinha e interesseira, chegando a se casar três vezes, sendo que nenhuma por amor verdadeiro. Tal ambigüidade ajuda a tornar a personagem real diante dos olhos do espectador, a afastando das tradicionais perfeitas e imaculadas heroínas.

No papel que mais marcou a carreira de ouro de Clark Gable (e cujo Oscar ele inexplicavelmente perdeu, alguns acreditam que pelo fato de Gable estar interpretando ele mesmo), Rhett Butler é a versão masculina de Scarlett. Ambos são personagens teimosos, autônomos e destemidos, que lutam para sobreviver a seu próprio modo. Talvez por serem tão semelhantes, o casal vive uma relação tempestuosa ao longo do filme, relação esta que é selada com uma das mais célebres frases do cinema. Ainda assim, Rhett se revela uma melhor pessoa do que Scarlett: quando os dois têm uma filha, o capitão se mostra um pai carinhoso e amoroso, enquanto as maiores preocupações dela se referem ao tamanho de seu espartilho. Diversas são as suas tentativas de se aproximar de Scarlett e, quando ela percebe que realmente o ama, já é demasiadamente tarde.

Com personalidades tão definidas, Scarlett O’Hara e Rhett Butler formam um dos mais peculiares casais das telas, podendo ser considerados a antítese de um tradicional par romântico. Enquanto os diálogos de Scarlett e Ashley são exageradamente literários e melodramáticos, as cenas entre o casal interpretado por Leigh e Gable são carregadas de acidez e ironia. Tomemos por exemplo a cena na qual Butler pede a mão de O’Hara em casamento. Uma ocasião que em um filme tradicional poderia ser o momento mais romântico da película, aqui é encenada com uma viúva bêbada que acaba de enterrar o marido e um pretendente que propõe um casamento “apenas por diversão”. Os dois se casam por maior questão de conveniência do que sentimento real: Rhett pelo desejo que nutre por Scarlett e ela pelo seu dinheiro. É dito que Leigh e Gable não tinham uma boa relação no set, mas o que vemos na tela é uma perfeita química entre a dupla, chegando a gerar certa dose de erotismo um tanto ousada para a época (“Ele me olha como se soubesse como fico sem roupas” ela diz ao trocar olhares pela primeira vez com o capitão). Em uma das mais polêmicas cenas do filme, Rhett força Scarlett a ter uma noite de sexo com ele após meses de negação. No dia seguinte, a expressão de satisfação no rosto dela não consegue esconder o prazer sentido na noite anterior.

Os outros dois co-astros do filme, Leslie Howard e Olivia de Havilland, interpretam o casal Ashley Wilkes e Melanie Hamilton. Representando a imagem oposta de Scarlett e Rhett, Melanie é a única personagem realmente boa no filme, se importando com todos acima de si mesma, enquanto Ashley é um homem cujos princípios de honra o impedem de assumir uma relação com Scarlett, mas que se revela ser uma pessoa fraca que vive no passado. Infelizmente, é justamente no papel de Ashley que o filme apresenta uma de suas maiores falhas, tendo início com a escalação do ator. Leslie Howard, na época com quarenta e três anos de idade, não apenas era muito velho para interpretar alguém que deve contracenar com duas atrizes com pouco mais de vinte anos, mas também aparenta estar desconfortável no papel. Acaba tornando-se difícil para o público entender a fixação de Scarlett por Ashley, especialmente quando o roteiro dá ao personagem alguns dos mais fracos diálogos do filme (demasiadamente fabricados e românticos, se analisarmos com uma visão moderna).

Famoso por seus excessos, ...E o Vento Levou faz jus ao seu rótulo de épico, tanto em escala quanto em duração. Sidney Howard, ao lado outros roteiristas não creditados, faz um competente trabalho na adaptação do romance com mais de mil páginas de Margaret Mitchell para as telas. Com quase quatro horas de duração (incluindo introdução e intervalo), é um esforço admirável que a atenção do espectador seja capturada até os últimos instantes do filme. Alguns problemas podem ser encontrados na segunda parte da obra, quando a narrativa se torna mais episódica e menos movimentada, mas ainda assim somos brindados com momentos de diálogos muito bem escritos e com reviravoltas o bastante para carregar o filme até seu derradeiro final. Enquanto é verdade que algumas cenas poderiam ter sido diminuídas ou totalmente excluídas, e que a parada de tragédias que atinge os personagens nos últimos minutos pode parecer excessiva, a longa duração contribui para a sensação final de que ...E o Vento Levou é realmente uma poderosa experiência.

Há alguns elementos que não envelheceram tão bem aos olhos de nossa sociedade politicamente correta, a principal delas sendo a representação dos afro-americanos. Alguns criticam o filme por mostrar personagens negros estereotipados, e escravos que se mostram felizes por trabalharem para seus mestres brancos. Um fato que pode passar negligenciado é que Mammy (na atuação de Hattie McDaniel que lhe rendeu o Oscar) é uma das personagens mais sensatas do filme, constantemente repreendendo as canalhices de Scarlett e sendo muito querida pelos demais personagens. Algo a considerar é que ...E o Vento Levou foi produzido em uma época com sensibilidades diferentes, e seria errado julgá-lo com olhos atuais. Como disse Roger Ebert em seu livro Great Movies, “um ...E o Vento Levou politicamente correto não valeria a pena ser feito, e poderia enormemente ser uma mentira.”

Independente de deficiências históricas e narrativas, é inegável que estamos falando de um dos filmes mais cuidadosamente produzidos da história. Desde os créditos iniciais onde os títulos se arrastam pela tela acompanhados da épica trilha sonora de Max Steiner, o espectador pode ter a certeza de que está na presença de algo verdadeiramente grande. Na época de seu lançamento, ...E o Vento Levou elevou a arte dos independentes departamentos do cinema ao máximo do que podia ser alcançado. Apresentando uma visão romântica do Velho Sul, o filme é extremamente detalhista em seus grandiosos cenários repletos de figurantes e seus belos figurinos. Um meticuloso estudo de mise em scène revela composições que variam da simples beleza efetiva de um close dos atores a ousados e grandiosos planos abertos. A marcante cena em que Scarlett parte em busca do Dr. Meade em um grande campo aberto, por exemplo, tem início com um plano fechado no rosto de Vivien Leigh reagindo ao que vê a sua frente. Aos poucos o plano é aberto em travelling para revelar uma interminável fila de corpos de soldados mortos e feridos dispostos ao chão, enquanto a câmera se afasta o bastante para revelar a bandeira dos confederados balançando alto contra o vento. As belíssimas pinturas mate (matte paitings) de Jack Cosgrove preenchem cenários e paisagens inexistentes, criando impressionantes visões como as vastas terras das plantações de Tara.

Um elemento que não passa despercebido aos olhos é o marcante uso do Technicolor no filme. ...E o Vento Levou foi o primeiro filme colorido a ganhar o Oscar de Melhor Filme, e também é uma das primeiras obras cinematográficas a mostrar uma preocupação em utilizar as cores para obter um efeito psicológico no espectador. Marcantes são as cenas em que os personagens são destacados em silhueta contra vastos céus avermelhados, estas que contrastam com os frios azuis que acompanham a volta de Scarlett na estrada à sua Tara destruída. O vermelho se faz presente em momentos chave da relação entre Rhett e Scarlett, acentuando o misto de paixão e fúria de seu relacionamento: no céu do crepúsculo durante a cena onde os dois se beijam na ponte após a fuga de Atlanta; na grande escadaria onde Scarlett sofre seu acidente e onde Rhett a leva para o quarto à força. Esta última cena em especial demonstra o virtuosismo técnico e o casamento perfeito entre os departamentos de figurino, fotografia e direção de arte. Não bastasse a natureza polêmica da cena, seu staging faz o uso dramático de sombras e da iluminação oriunda de castiçais e de um enorme lustre que paira sobre a grande escadaria. O vermelho das escadas casa com o vermelho do vestido de Scarlett e, quando Rhett a carrega no colo degraus acima, os dois somem em meio à penumbra.

Talvez uma das chaves para se apreciar ...E o Vento Levou corretamente é se desarmar de maiores preconceitos e aceita-lo como um produto de sua época: uma grande saga sobre pessoas apaixonadas em tempos de guerra como apenas Hollywood sabia fazer. Independente de alguns elementos datados, o filme não perdeu seu poder e a capacidade de prender aos que se renderem à sua dramaticidade. Assim como Scarlett na cena final do filme, indestrutível e incapaz de se render, ...E o Vento Levou continua a se firmar como um dos grandes marcos na história do cinema.